Fotografia com panelas de ferro a fazer uma sopa

Esta fotografia foi tirada por um amigo e colocada no Instagram na passada quarta-feira. A sopa e a fogueira foram realizadas pelos alunos do Externato Senhora do Carmo, em Lousada.

A fotografia no Instagram não significa a posse da obra, apenas significa que a pessoa que fez a fotografia possui o valor simbólico da mesma. O valor desta fotografia é bastante elevado porque representa por um lado uma forma tradicional de cozinhar por outro o trabalho das pessoas que criaram a fogueira e fizeram uma sopa naquelas condições.

Ao tirar uma fotografia está a apropriar-se de uma parte do trabalho de execução dessa mesma sopa. Isto significa que quem tirou a fotografia passou a deter um capital valorativo de aceitação e ligação com esse objeto embora nada tenha feito para que o mesmo trabalho se materializasse. Em suma, apenas colocou uma foto no Instagram.

Na sociedade atual muitas das nossas experiências são convertidas em fotografias e essas fotografias originam comentários e likes. Eu próprio sou um utilizador regular das redes sociais. O ato de colocar uma foto e esperar por um like ou um comentário geram endorfinas cerebrais que se traduzem em aceitação social e prazer. É também uma forma rápida e simples de expor o meu trabalho e de criar uma rede de pessoas interessadas em mim e naquilo que faço. Não me interpretem mal, eu adoro as redes sociais e não venho fazer a critica fácil e simples. Venho é referir o facto de que para existir uma fotografia terá sempre que existir uma obra, um trabalho e uma filosofia por detrás. Eu quero falar é da sopa e da sociedade que a sustentou durante muitos anos e do interesse que no mundo atual uma sopa feita em cima de uma fogueira consegue obter.

Como todos sabem sou Transmontano. Vivi os meus anos formativos de juventude numa relação intensa entre a modernidade e o mundo tradicional. Aproveitei com todos os benefícios do desenvolvimento económico e tecnológico que alterou o panorama social da minha terra. No entanto, tentei integrar sempre essa modernidade com a defesa do que é tradicional.

Como cresci junto à natureza acabei por viver no mundo super-real. Na natureza não há muitos sonhos. Há uma realidade muito objetiva e permanente. Os animais têm que ser levados ao pasto diariamente, as culturas têm que ser semeadas na sua estação. Esta realidade tem como objetivo que a cadeia ecológica funcione de forma ininterrupta. Assim, eu aprendi a plantar os legumes na estação, a cuidar os legumes enquanto crescem, a colhe-los na melhor altura, a cortar lenha, a fazer fogueiras e por ultimo a cozinhar.

Mas voltemos à fotografia. Quem fez a fotografia durante aquele momento, colocou-a no Instagram e ficou a aguardar a recompensa na forma de likes e de comentários positivos. No passado para obter este nível de recompensa a pessoa teria que ter cozinhado a sopa para a família ou para os seus convidados e isso implicava ter tido o trabalho de cuidar dos legumes e sabido fazer uma fogueira e, como recompensa, ter escutado a satisfação dos mesmos ao comer tão boa sopa. A tecnologia evitou-nos esse trabalho.
Mas porque é que o “tradicional” nos faz querer fazer fotografias e vontade em nos associarmos a esta ideia? Será que no fundo, o comunitarismo português não morreu e ainda há uma réstia dentro de nós? Será que vivemos aprisionados entre a vontade de viver uma vida moderna e a satisfação de saber que no passado as pessoas eram os seus próprios padeiros e os seus próprios talhantes?

Em Portugal especialmente nas aldeias do Norte existia um tipo de vida comunitária que pretendia equilibrar o homem e o seu entorno. Era uma forma de vida mais igualitária onde a generalidade das pessoas pertencia à mesma classe social e trabalhavam orientadas ao mesmo objetivo – Subsistir. O conceito de propriedade privada existia lado a lado com o conceito de propriedade comunitária. As pessoas trabalhavam as terras e pastoreavam o gado com objetivo de obter alimento e dinheiro para o seu dia-a-dia.  Muitas das tarefas diárias que envolviam maior necessidade de mão-de-obra eram realizadas envolvendo todas as pessoas da aldeia, por exemplo, sempre que alguém necessitava de semear o milho ou as batatas pedia ajuda aquelas pessoas que no passado tinha ajudado. Essa tarefa quando realizada em conjunto poderia demorar uma manhã. Quando realizada individualmente poderia demorar alguns dias. Um dos valores centrais da vida era a entreajuda. Hoje em dia há toda uma industria a tentar transmitir estes valores no local de trabalho.

Os códigos de conduta eram governados pela religião e pelos usos e costumes dessas mesmas aldeias. O ecossistema determinava que tipo de atividade era maioritariamente realizada nas aldeias. Nas aldeias dos vales dos rios, predominava a agricultura. Em aldeias mais altas da serra predominava a pastorícia. E apareciam subculturas como os cerieiros (onde existiam colmeias) ou peleiros (onde existia muita pastorícia). O comunitarismo era também visível na organização das festas e romarias, no respeito prestado aos mortos e nos momentos de tragédia em que o sino das capelas ou igrejas das aldeias tocavam e reuniam todas as pessoas. Um dos perigos mais comuns eram os incêndios florestais. As pessoas ajudavam-se porque defendiam os terrenos de todos, o ego era sacrificado em detrimento do bem comum. Outros exemplos de trabalho comum podem ser encontrados sempre que era necessário fazer obras, como por exemplo arranjar as fontes de água, arranjar os regos de irrigação ou fazer poços e minas, estradas, caminhos, muros, tanques comunitários… As regras sociais organizavam também a distribuição da água ao gado e à agricultura. Sobreviver era a soma da capacidade de cooperar com os vizinhos.

A sopa na panela de ferro é um produto dessa cooperação e muito dificilmente será explicado só com uma fotografia ou um like. No entanto, o valor do like e do comentário é imenso. A velocidade de comunicação das redes sociais permite manter acesa a ideia de comunitarismo e de tradição. O sabor da sopa ainda não pode ser transmitido pelas redes sociais, mas a ideia e o simbolismo sim. Mesmo sem o esforço e o tempo necessário a fazer uma sopa, o valor imaterial da mesma está relacionado com a capacidade de transmitir esta mensagem a todos.

Como cozinheiro e proprietário de um restaurante acho que parte da minha obrigação é colocar esse esforço e dedicação em tudo o que faço e transmitir esse empenho nas redes sociais para difundir o mais longe possível esta ideologia. Mesmo estando sujeito a críticas por parte de muitos que não querem fazer esse esforço continuarei a defender os produtos regionais e as atividades tradicionais do meu país como forma de não deixar esquecer o nosso legado e de permitir que as pessoas possam continuar a fazer likes.

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