ÉPOCA DE CAÇA

Começou recentemente a época da caça. É nesta época que visito mais vezes a minha terra, Alfandega da Fé. Desde miúdo que me habituei a lidar com caçadores, a começar pela família e, já adolescente, comecei a dar os primeiros tiros. Aprendi a respeitar o equilíbrio que a natureza nos pode dar, se também a respeitarmos. Sempre cacei a maior parte das vezes com o meu pai. Claro que também me habituei a apreciar a carne dos vários tipos de caça – uma lebre com nabos, umas perdizes e uns coelhos estufadinhos ou uns tordos abertos ao meio, sal grosso e brasa com eles – são petiscos que fazem parte da minha vida e que adoro. Aliás, estes pratos tão tradicionais acompanharam sempre a minha cozinha. No meu trabalho utilizo sempre que posso, alguns desses sabores e texturas.

Mais tarde, com outros amigos, comecei também a praticar caça grossa, sobretudo a caça ao javali, com outro estilo, mas de que também gosto muito. Nas minhas idas até ao Alentejo para essas caçadas, não só a viagem mas sobretudo o convívio, as jantaradas entre amigos, as dormidas pelas várias localidades, dá-me uma vivência fantástica. É precisamente esse tipo de convívio que mais gosto nas nossas caçadas. Mas, sempre que posso regresso a casa de meus pais. Primeiro porque no dia anterior, à noite, já sei que vou deliciar-me com um dos muitos petiscos que a minha mãe me vai preparar. Há sempre umas alheiras e umas chouriças que passam pelas brasas, antes de vir para a mesa comida a sério, como deve ser. Bebe-se mais um copo e põe-se a conversa em dia antes de ir para a cama, pois a alvorada vai ser muito cedo. Mesmo com o frio, é com grande vontade que salto da cama pelas cinco e meia da manhã, para uma refrescadela rápida, o meu pai já lá fora à espera, e lá vamos na carrinha. Pequeno almoço no café ao fundo da Vila, saudações a muitos outros caçadores e ala para o monte, que daqui a pouco começa a amanhecer. Saltam histórias, recordações, piadas e anedotas, criticas divertidas e de repente estamos no monte, no lugar do costume. Cá fora respiramos o ar puro gelado, por vezes o terreno ainda está com gelo. Mesmo que chova não desanimamos e lá nos espalhamos, em busca das peças que queremos abater. Coelhos, lebres, perdizes e raramente uma codorniz são o alvo por que tanto ansiamos, contando sempre com a ajuda dos cães, ladinos, experientes, atentos. Mais tarde será a vez dos tordos, que aparecem em bandos por vezes enormes e que desafiam a nossa perícia e atenção. Mas há uma hora que é sagrada, a hora de meter uma bucha. Existem sempre umas “casotas” que vão aparecendo no monte, que nos dão abrigo e onde acendemos umas brasas que rapidamente dão calor a uns enchidos, sai o pão fresco, e as pequenas navalhas transmontanas não param. Não faltam o vinho na “Bota”, que é um consolo. E lá continuamos pelo monte, até o dia começar a fugir, o que acontece cada vez mais cedo. No regresso a casa contam-se as peças abatidas, fazemos críticas uns aos outros, sempre com divertimento, até chegarmos a casa. Espera-nos um chuveiro quente que retempera, a lareira a crepitar e, claro, a mesa farta que a minha mãe começou a preparar. São as coisas boas da vida…

Fotografia e texto de Marco Gomes

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