AS CEREJAS DA MINHA TERRA

Nesta época, em que encontramos cerejas por todo o lado, nas pequenas mercearias até às grandes superfícies, regresso sempre à minha terra, Alfândega da Fé, para a Festa da Cereja. Este ano, infelizmente, não foi possível estar presente, para minha imensa tristeza, mas acompanhei a festa ao longe, ora por posts de amigos colocados nas redes sociais, ora por telefonemas que ia recebendo. Mais uma Festa da Cereja que passou e mais um ano a lembrar-me da minha infância e adolescência, em que esta época coincidia com o final das aulas. Catraio com os meus 14 anos, lá juntava os amigos mais chegados e não resistíamos a ir pelos pomares de cerejeiras, sempre atentos aos vigilantes da cooperativa, apanhar umas braçadas daquele fruto delicioso. Naquele tempo, apenas as mulheres eram contratadas para apanhar cerejas, mas no primeiro ano em que os homens foram autorizados na apanha, lá fui eu, nos meus 16 anos, apanhar cerejas…mas também comer quantas podia!! Hoje a produção está regulamentada e além da cooperativa local, há mais de uma dúzia de produtores particulares. Os pomares continuam belíssimos, como sempre, numa região que chegou a ter a maior mancha de pomares de cerejeiras da Península Ibérica, onde mais de 600 pessoas andavam diáriamente na apanha das cerejas, muitas dessas cerejas eram para a empresa “Mon Chérry”, produtora dos famosos bombons. Era um orgulho ver os enormes camiões da “Mon Cherry” estacionados à beira da Cooperativa Agrícola e, quando estavam carregados, partirem em direção ao seu país, levando um cheirinho de Alfândega da Fé. Lembro-me também que nessa altura, as carrinhas da Cooperativa Agrícola e da Câmara Municipal passavam pelas aldeias de todo o concelho de Alfândega da Fé, ainda antes do nascer do sol, para reunir as pessoas que iam à “jeira”, ou seja, apanhar as cerejas. Entretanto, devido também á replantação dos pomares  mais antigos, a produção diminuiu bastante, mas ainda assim é a maior produção de cerejas de toda aquela região transmontana. Quando as cerejeiras se cobrem de flor, lá para Março/Abril, Alfândega da Fé fica quase irreconhecível, uma paisagem fantástica que já ali leva muita gente. Mas quando ali vai mesmo muita gente é na Festa da Cereja. É a festa em que a cereja é a rainha, mas onde a tradição transmontana de comer e beber a qualquer hora durante aqueles dias se mantém a rigor. Embora haja vários tipos de cereja, as principais variedades são: Burlat, Sunburst, Van e Summit. Umas mais pequenas, maiores, vermelhas, vermelhas muito escuras (quase pretas), vermelhas alaranjadas e brancas – em Alfândega da Fé, desde miúdo, sempre ouvi a população local falar de dois tipos de cerejas, popularmente conhecidas por “cerejas de cedo”, mais escuras, que ficam quase pretas e que são as primeiras a chegar, e as “cerejas de tarde”, vermelhas vivas, mais durinhas, que se apanham mais tarde, e que são as mais adequadas para fazer compotas e preparar em calda, o que ainda faço, pois tive como mestras duas grandes especialistas, a minha avó e a minha mãe. É este amor à minha terra, aos produtos genuínos que continuo a utilizar a apreciar, à sua gente, à minha família de que tenho tanto orgulho, e aos muitos amigos que por lá tenho, que me leva a divulgar, sempre que posso, as cerejas de Alfândega da Fé, esta verdadeira bandeira que podia ser muito mais divulgada e conhecida, assim todos remassem para o mesmo lado… Eu, nunca vou desistir, nunca vou deixar de falar destas cerejas fantásticas. E, sempre que for a Alfândega da Fé nesta época, hei-de regressar á minha infância e adolescência, juntar os amigos e, marotos, sentirmo-nos como putos por baixo das cerejeiras a apanhar e comer directamente da árvore até apanhar uma barrigada… À noite, em casa dos meus pais, entre umas chouriças, uns salpicões e um cordeiro na brasa, deliciar-me, como fazia em catraio, a ver a minha avó e a minha mãe a preparar a compota de cereja. Texto e fotografia de Marco Gomes

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